ClickUp demitiu 22% da equipe e chamou de estratégia.
286 pessoas foram de arrasta essa semana e o CEO comemorou
286 pessoas perderam o emprego essa semana. O CEO anunciou como vitória. Isso não é sobre a ClickUp: é o script que todo o mercado tech vai usar.
TL;DR
🔥 A ClickUp demitiu 22% do time e embalou como “estratégia de futuro”, não como corte de custo. É mentira elegante.
📅 Em 2026, mais de 111 mil empregos foram eliminados em 140 empresas de tech. Todo mundo usa o mesmo script.
☠️ Estudo da Gartner com executivos de bilionárias mostra que essas demissões não estão gerando retorno financeiro real. A conta não fecha.
💡 A Polsia, startup solo com zero funcionários, chegou a 10 milhões de ARR em 5 meses. Essa é a POC que valida cada demissão “por IA” que vem por aí.
💣 O anúncio: 286 pessoas, embrulhado em visão de futuro
286 pessoas perderam o emprego essa semana. O CEO da ClickUp, Zeb Evans, acordou, abriu o computador e publicou um textão no X anunciando que demitiu 22% da empresa. De um time de 1.300 pessoas.
Mas olha como ele descreveu isso. A frase central do post foi: *”This wasn’t about cutting costs.”* Não foi sobre cortar custos. Foi sobre estratégia. Foi sobre construir uma “100x org”, uma organização onde cada pessoa que ficou vai produzir 100 vezes mais usando IA.
Pra provar que não é papo, Evans anunciou que a ClickUp já implantou 3.000 agentes de IA internos. Uma proporção de 3 agentes pra cada funcionário humano. Esses agentes atuam no Slack, revisão de código, suporte ao cliente e fluxos de produto. Os funcionários que ficaram pararam de executar tarefas diretamente. Agora eles gerenciam os agentes. São os novos “babás de agente”.
E pra fechar com chave de ouro: Evans prometeu faixas salariais de até 1 milhão de dólares por ano, em dinheiro, não em equity, pra quem demonstrar “impacto 100x” usando IA.
É uma narrativa bonita. Agora deixa eu te mostrar o problema.
📅 O script que todo mundo tá usando ao mesmo tempo
“Não foi sobre cortar custos” é exatamente o que toda empresa diz quando demite pessoas usando IA como justificativa.
Olha o que aconteceu na mesma semana que a ClickUp anunciou os cortes. A Intuit, empresa que faz QuickBooks e TurboTax, demitiu 17% da força de trabalho global. São 3.000 pessoas. Motivo declarado: foco em IA. A Meta anunciou mais um ciclo de demissões, 8.000 postos a menos. Amazon, Oracle, Microsoft, Block, Pinterest. Até maio de 2026, mais de 111.000 empregos eliminados em mais de 140 empresas de tech só nesse ano.
Todo mundo usa o mesmo script: *”O negócio está mais forte do que nunca. Não é corte de custos, é reinvestimento em IA. Os funcionários que ficaram vão ganhar mais.”*
Quando todo mundo usa o mesmo argumento ao mesmo tempo, o argumento para de ser argumento e vira cortina de fumaça.
🕵️ O dado que as empresas ignoram: a conta não fecha
Tem um dado que contradiz diretamente essa narrativa toda. A Gartner entrevistou 350 executivos globais de empresas com receita anual de pelo menos 1 bilhão de dólares. Não é aluno de curso online, não. São os 33 de verdade.
O resultado: cerca de 80% das empresas que testaram automação com IA já reduziram equipes. Mas, e esse “mas” importa muito, essas demissões não estão gerando retorno financeiro relevante. O investimento em IA não está sendo compensado pela redução de custos com pessoal. As empresas estão gastando mais em infraestrutura, licenças e gestão de agentes do que economizando em folha.
📰 [AI automation layoffs: Gartner study shows no ROI (Fortune, mai/2026)
Helen Poitevin, VP analista da Gartner, disse literalmente: *”Workforce reductions may create budget room, but they do not create return.”* Cortar pessoas abre espaço no orçamento, mas não é isso que separa as empresas que estão ganhando com IA das que estão perdendo.
O que diferencia? As empresas com melhores resultados são as que usam IA pra amplificar pessoas: investindo em habilidades, criando novos papéis, deixando humanos guiar e escalar os sistemas autônomos. É o oposto do que a maioria está fazendo.
🤖 A Polsia: a POC que valida tudo isso
Tem uma parte dessa história que o mercado ainda não processou direito. Existe uma startup de um ano que foi avaliada em 250 milhões de dólares e tem exatamente zero funcionários além do fundador.
A Polsia foi fundada por Ben Cera. Nove agentes de IA gerenciam pesquisa, código, anúncios pagos, suporte ao cliente e vendas. Zero funcionários além do próprio fundador. Cinco meses após o lançamento: 10 milhões de dólares de ARR, 7.600 clientes empresariais, 85% de retenção no segundo mês. Em maio de 2026 levantou 30 milhões de dólares a uma valuation de 250 milhões.
Isso não é ficção científica. Não é case de curso. É benchmark real.
Se uma pessoa com agentes consegue escalar pra 10 milhões de ARR, qual é a justificativa pra manter centenas de funcionários em funções automatizáveis? Do ponto de vista do capital: nenhuma. A Polsia é a prova de conceito que valida cada demissão “por IA” que você vai ver daqui pra frente. E vai ver muita.
☠️ A falácia embutida na frase bonita
Evans escreveu: *”The people that automate their jobs with AI will always have a job.”*
Pode até ser verdade no curto prazo pra quem conseguir fazer a transição. Mas tem uma falácia embutida aqui que precisa ser nomeada.
Se todos os funcionários se tornam 10x ou 100x mais produtivos, a demanda por trabalho não cresce na mesma proporção. O mercado não precisa de 10x mais projetos de software porque os engenheiros ficaram melhores. O que acontece é que menos pessoas fazem o mesmo volume de trabalho, e a diferença vai pras margens das empresas ou pros poucos no topo da distribuição salarial.
Dario Amodei, CEO da Anthropic, cara que literalmente faz uma das ferramentas que está causando isso tudo, previu que a IA pode eliminar até metade de todos os empregos de entrada no mercado de trabalho de colarinho branco nos próximos um a cinco anos.
Até o criador do problema está reconhecendo a escala do problema. Deixa isso marinar.
📊 Taylorismo com cara de futuro: o problema das métricas
Tem um detalhe no modelo da ClickUp que passa despercebido na narrativa otimista.
Em 2026, várias empresas adotaram o que chamam de “tokenmaxxing”: monitorar o consumo de tokens de IA dos funcionários como proxy de quem está “adotando IA”. Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, chegou a endossar isso como um bom dashboard.
Só que a métrica é fundamentalmente idiota. É o equivalente a ranquear funcionários por quanto gastam, não pelo valor que geram. Se for pra gamificar token, eu pego token da empresa e torro em vários projetos paralelos pra ficar sempre no topo. Simples assim.
A ClickUp diz que vai na direção oposta: em vez de gamificar consumo de tokens, vai gamificar “valor criado e tempo economizado”. Parece mais sofisticado. Mas cria um problema ainda mais espinhoso: como você mede “impacto 100x” de forma justa e auditável?
A resposta é: você não mede. A empresa mede. E quando a métrica de desempenho é subjetiva e controlada pela empresa, o trabalhador perde poder de negociação. Você pode trabalhar mais, produzir mais, orquestrar mais agentes, e ainda assim não ser classificado como alguém de “impacto 100x”. Porque é abstrato. Porque é conveniente pra empresa que seja abstrato.
Isso é uma regressão disfarçada de inovação. É o taylorismo do século XXI: controle total sobre o que conta como produção, mediado por IA e embrulhado numa narrativa de empowerment. A gente aprendeu sobre KPIs exatamente pra não voltar pra isso.
💡 E daí? O que fazer com isso
A mensagem pra quem trabalha com tecnologia é direta: orquestrar sistemas de IA virou habilidade fundamental, não opcional. Isso é real. Não adianta bater no peito e falar que não vai usar IA. Você já tá atrasado.
Mas tem um limite que o mercado ainda não processou. Ser bom em usar IA não garante emprego se a empresa decidir que precisa de menos pessoas no total. Na China, tribunais já decidiram que substituir funcionários por IA não é justificativa legal pra demissão. No Brasil e nos EUA, nenhuma proteção equivalente existe.
Quando a ClickUp promete 1 milhão de salário pra quem gerar “impacto 100x”, o implícito é claro: pra todo mundo que não conseguir demonstrar isso, as condições pioram ou o emprego desaparece. É uma redistribuição de risco do capital pro trabalhador, embrulhada numa narrativa de futuro brilhante.
O futuro do trabalho pode ser mais produtivo. Mas se a gente não resolver quem captura o valor dessa produtividade, a gente tá construindo um sistema mais eficiente pra concentrar riqueza, não pra distribuí-la. As empresas sabem disso. Elas só preferem não falar.
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🔗 Referências
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Você acha que essa narrativa de “100x org” é real, ou é a mesma velha história de corte de custos com roupa nova? 👇

